Corrupção

OS POLÍTICOS E A CORRUPÇÃO

Postado em Atualizado em

O ciclo da corrupção moderna

  • Por Luiz Valério Rodrigues Dias.

 

O ciclo da corrupção funciona em ondas, conforme o ciclo econômico. Ou também como o jogo financeiro das bolsas de valores do mundo globalizado. Neste caso, ganha mais quem percebe quando a onda atinge o ponto máximo e retira-se do ambiente de risco em momento oportuno. No caso da corrupção, a onda pode durar 4, 8, 12 ou mais anos. Em Brasília, por exemplo, houve um “excelente” ciclo expansionista de 12 anos, que durou de janeiro de 1999 até dezembro de 2010. Durante esse ciclo, havia muitos profissionais, ou melhor, especialistas “competentes” atuando com desenvoltura em diversos setores, tanto público quanto privado.

Até há pouco tempo, vários desses “profissionais da política” de Brasília figuravam em páginas de conteúdo político e colunas sociais de jornais e revistas. Eram reverenciados pela mídia e por empresários de diversos ramos — construção, saúde, habitação, educação, meio ambiente, esporte, saneamento básico.  Uns eram jovens talentosos e bem sucedidos, ora como empresários e, depois, como políticos. Outros eram experientes e vencedores no setor privado, e também se tornaram políticos superdotados. E todos se conheciam e se amavam e se regozijavam com as várias estórias comuns de sucesso coletivo. E todos eram amigos do Rei. E a mídia os aplaudia. E o povo, neles votava. E o sistema eleitoral brasileiro funcionava e aperfeiçoava-se para tornar-se o “melhor do mundo”. Dessa forma, essa turma fazia parte do ciclo expansionista de um verdadeiro modelo de fractal político brasiliense.

Mas, o que aconteceu a partir de 2011? Os mesmos meios de comunicação que idolatravam esses políticos, agora os criminalizam? A mesma justiça que os inocentavam, agora os condenam? Os mesmos empresários, banqueiros, Ongs, Oscips que os corrompiam, agora os reprovam? Mas, afinal, o que aconteceu? Parece que a crista da onda bateu na areia em 2011, e muitos deles não perceberam isso.

Entende-se como modelo de fractal político uma versão perversa do “renascer das próprias cinzas.” Cita-se, por exemplo, o caso do ex-todo poderoso José Roberto Arruda. Ele é somente um dos exemplos da alegoria da fênix. Pois nós sabemos que há inúmeros políticos que transfiguram essa alegoria em caricatura de ação política. E são esses políticos que desonram e mancham Brasília com as cores da corrupção.

Mas um novo ciclo se inicia em 2011 — no qual se espera a prevalência da ética, transparência e justiça. Prenuncia-se também uma nova era de esperança para o povo. Além do mais, inicia-se um novo tempo para o Estado democrático de direito. E espera-se, fundamentalmente, que desta vez seja um Estado não corrupto.

Porém, no limiar do mandato de todo novo governante, pode-se identificar ações que impedem o cidadão de diferenciar governantes bem-intencionados dos mal-intencionados, porque todos eles aplicam proporções semelhantes dos ordenamentos básicos de Maquiavel como se fossem medidas necessárias e suficientes para provar que o novo governo é sério, honesto, trabalhador e criterioso.

Entretanto, como todos, independentemente do matiz político-ideológico, aplicam as mesmas receitas de Maquiavel, para o astuto observador corrupto, o livro “O Príncipe”, de Maquiavel, e o livro “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry, são a mesma face de uma mesma moeda, pois dirá o observador corrupto: “com o Príncipe ou Pequeno Príncipe, nada mudará, pois o Estado sou eu”.

Já para o observador comum, cidadão e eleitor, todo início de governo é sempre uma surpresa por causa dos pacotes de maldades. Depois, os eleitores, acostumados com as práticas desses políticos, como se os atos deles já fizessem parte do tecido social brasileiro, anestesiados pelas fantásticas estórias de sucessos contínuos desses mesmos políticos, e impossibilitados de diferenciar fatos políticos — geralmente pouco divulgados — de versões da política — cujos chamados “homens bons” aparecem sorridentes em eventos e colunas sociais —, votam neles novamente e novamente e novamente.

O ciclo de corrupção valoriza o Estado democrático de direito na medida em que usa esse sistema e o atualiza para uma versão moderna hobbesiana e o transforma em uma espécie de “Estado-leviatã democrático moderno”. Não obstante seja a democracia o melhor sistema de representação política, é pelo sistema democrático que o sistema da corrupção também se fortalece e consegue eleger novos nomes com velhas práticas, ou estabelecendo novas práticas para os velhos nomes; porém, sempre tendo a certeza de que as mudanças políticas são necessárias para que tudo continue exatamente como antes, visando a continuar elegendo ad aeternum “os bons corruptos”.

Para tanto, “os bons corruptos” necessitam dos préstimos do “Estado-leviatã democrático moderno”. E nessa versão brasiliense aperfeiçoada, a corrupção expande tentáculos por intermédio de seguras veias capilares, que irrigam e dão sobrevida, com precisa constância, aos três pilares do poder: executivo, judiciário e legislativo.

Além disso, em Brasília, o setor público comunica-se com extrema eficácia e eficiência com o setor privado. Para manter a oxigenação do sistema, “o bom corrupto” precisa de segurança, que somente o “Estado-leviatã democrático moderno” pode lhe proporcionar, na medida em que este Estado de direito — democrático e desconcentrado — estabelece regras obscuras, difusas de convivência social, bem como difunde a anarquia jurídica para beneficiar “os amigos do Rei”. Para isso, o “Estado-leviatã democrático moderno” aparelha os três níveis do poder público, amalgamado com o setor privado, com homens que têm a senha de sedução de “ser amigo do Rei” — cognome para “o bom corrupto”.

Dessa maneira, com as peças dos “bons corruptos” encaixadas estrategicamente em todos os níveis de poder, o sistema funciona por inércia. A rigor, o “Estado leviatã democrático moderno” não está preocupado se o Estado é democrático ou despótico. Muito menos se o sistema eleitoral é majoritário ou proporcional. O que importa para esse Estado corrupto é a sólida experiência acumulada de conhecimento sobre a índole do homem político — inclinação para assumir o poder a qualquer custo.

Mas, com as eleições de 2010, parece que, em Brasília, houve um esgotamento do ciclo expansionista dos últimos 12 anos. Ressalte-se, contudo, que esse modelo de fractal político brasiliense — que renasce de uma molécula corrupta sobrevivente — possui representantes que se escondem, silenciam-se, mas nunca adormecem na esperança de que um novo ciclo surgirá para assumirem o controle político-privado do poder e para se tornarem mais poderosos do que o protótipo original.

A partir de 2011, não obstante haja esperança e fé no ressurgimento de uma nova Brasília, alerta-se que a lógica do ciclo da corrupção funciona em descompasso temporal com o período eleitoral. Independente de quem esteja no poder, todos os setores de bens e serviços tornam-se, automaticamente, aliados dos novos donos do poder. E dentro desse novo contexto político pós-eleições 2010, alguns agentes que já se tornaram, ou ainda pensam tornar-se corruptos, terão a certeza de atuar com a segurança da impunidade por certo período de tempo, pelo menos enquanto durar o novo ciclo político, haja vista que, agora, tudo e todos — executivo, legislativo, judiciário, mídia, empresários, banqueiros, Ongs, Oscips — passam a conspirar a favor desses novos donos do poder. Dessa forma, continuaremos a ver nossos novos e velhos políticos, eleitos em 2010, sorridentes e ativos, frequentando diversos eventos e aparecendo em páginas de jornais, destacando-se em colunas sociais e assuntos políticos.

Portanto, não há vislumbrar soluções de curto prazo para o caso brasileiro. Mas, há possíveis soluções de médio e longo prazo para o Brasil sair da “escuridão da caverna de Platão”. No médio prazo, a sociedade civil organizada poderia incentivar as boas práticas de combate à corrupção. Por exemplo, cobrar de todos os políticos eleitos para serem responsáveis (accountability política) por tudo aquilo que prometem e realizam (ou não), em perfeita conexão com o passado, o presente e o futuro deles, dos cidadãos e do país. Ou seja, cobrar e fiscalizar para que os políticos tenham Responsabilidade Social Eleitoral — que estejam conectados com atos e fatos contínuos para fortalecer os princípios de ética, justiça, transparência, razoabilidade, publicidade, legalidade, impessoalidade e moralidade. Somente a sociedade organizada terá força para criar este selo valioso, principalmente em ano eleitoral. E, espera-se, que haverá políticos interessados nessa versão brasileira do “Yes, we can”. Além disso, a sociedade precisa ainda estabelecer critérios para também elaborar um selo de Responsabilidade Ético-Gerencial para empresas públicas e privadas – cujo tema será abordado em artigo futuro. E quanto às ações de longo prazo, o país precisa investir em solução magicamente real: educação, principalmente investindo no ensino fundamental e médio.

Quanto ao momento atual, cabe ao cidadão observar atentamente os passos desses políticos, para, assim, diferenciar o bom político do “bom corrupto”. Afinal, a vida segue em ondas, como a economia, a bolsa de valores, a eleição e a corrupção.

  • Economista e Cientista Político.

ESTE ARTIGO REFLETE A OPINIÃO DO AUTOR, E NÃO NECESSARIAMENTE  A POSIÇÃO DO SITE www.washingtonbarbosa.com. O SITE NÃO PODE SER RESPONSABILIZADO PELAS INFORMAÇÕES ACIMA OU POR QUALQUER PREJUÍZO DE QUALQUER NATUREZA EM DECORRÊNCIA DO USO DESSAS INFORMAÇÕES

Anúncios

VIDA ETERNA AOS CURRUPTOS!

Postado em

O SIMPÁTICO CHARME DOS CORRUPTOS

Theófilo Silva

 

Confesso que me rendi ao charme dos gangsters brasileiros. Eles imitam bem os gangsters de Hollywood. Seus ternos, carrões (Ferraris, Masseratis e Porsches), lanchas, Rolexs, mansões, festas, viagens, jatinhos, belas mulheres… Esse glamour todo me conquistou. Aceitei o fato de que o crime compensa. Pelo menos, no Brasil tem compensado.

Há corruptos para todos os gostos, no Brasil. Como moro em Brasília, vou falar somente dos corruptos daqui. Todo brasiliense, com um pouco de informação, sabe quem são os sujeitos dos quais estou falando. São muitos, mas tem uns dez que são Top, a nata, são famosos e ultrassofisticados. Parte deles iniciou a carreira como comerciantes e acharam sua vocação na política. Depois de ocuparem mandatos e cargos públicos, tornaram-se milionários. Denunciados pelas autoridades, afastaram-se para torrar os milhões desviados.

O que me espanta nesses caras é o completo desprezo com que eles veem as autoridades brasileiras: delegados, promotores, juízes… Segundo eles, esses funcionários do governo, que ganham um salário menor do que o IPVA (que eles não pagam) de um de seus carros, são uns coitados. Eles não veem diferença entre um juiz e um empregado de cartório. “Por que perder tempo, se o processo irá para o STF e jamais será julgado”!

Esses “top ten” respondem, pelo menos, há uma centena de processos na justiça: por peculato, formação de quadrilha, extorsão, apropriação indébita, assassinato, estupro, tramitando no mínimo há vinte anos. Mesmo condenados, são réus primários, não há sentença definitiva. Por isso eles distribuem sorrisos e gastam dinheiro. Suas fotos nos jornais, apontando-os como criminosos, não os intimidam. Pelo contrário, aumentam a fama deles. Alguns só faltam dar autógrafos. Nossos “top ten” são verdadeiros superstars, com muitos admiradores. Dizem que eles encaram uma condenação por formação de quadrilha como se fosse infração de trânsito.

E como não admirá-los! Quem é que não quer ser rico? Não é por isso que lutamos, por uma existência em que o dinheiro não seja problema? Como desprezar alguém que tem tudo aquilo que eu gostaria de ter? Como julgá-los criminosos, se o STF não confirma que eles são? Quem somos nós para julgá-los! Se delegados, promotores e a imprensa afirmam que “um sujeito simpático” desviou 30 milhões de reais da merenda escolar, mas os tribunais superiores dizem que não, eu posso dizer que esse sujeito é um ladrão? Claro que não! Temos que respeitar a instância máxima do judiciário.

E eles têm imitadores – aqui na cidade, seguindo seus métodos – que ainda não foram desmascarados. Talvez a sociedade esteja errada em condenar esses homens sorridentes, bem vestidos, charmosos, sempre prontos a apertar a nossa mão, olhando dentro de nossos olhos, e dizendo: “eu sou o cara”!

Shakespeare, se os visse, diria: “esse sujeito tem tudo que um homem honesto não deve ter e do que um honesto deve ter, nada tem” ou então: “Esse sujeito, de honesto só tem as roupas que veste”. Shakespeare criou dois gangsters sedutores, Ricardo III e Macbeth, mas matou-os no final das peças!

O sucesso dos gangsters deve ser respeitado. Se desviar dinheiro público não dá cadeia, qual é o problema em fazê-lo? Ora, o mundo é dos espertos, e os tolos que fiquem chupando o dedo. Afinal, quem é a sociedade para duvidar do STF. Se o STF não os julga, por que nós devemos julgá-los?
Proponho um brinde! Vida longa aos Corruptos!

Theófilo Silva é autor do livro A Paixão Segundo Shakespeare e colaborador do site www.washingtonbarbosa.com

ESTE ARTIGO REFLETE A OPINIÃO DO AUTOR, E NÃO NECESSARIAMENTE  A POSIÇÃO DO SITE www.washingtonbarbosa.com. O SITE NÃO PODE SER RESPONSABILIZADO PELAS INFORMAÇÕES ACIMA OU POR QUALQUER PREJUÍZO DE QUALQUER NATUREZA EM DECORRÊNCIA DO USO DESSAS INFORMAÇÕES

CULTURA Theófilo Silva

Postado em

 

A Justiça e as Botas

THEÓFILO SILVA

A devastadora entrevista de um senador por Pernambuco sobre a corrupção no PMDB, o retorno triunfal de corruptos notórios ao palco central da política e a recente discussão pelo STF de soltar os criminosos cujo processo não tenha transitado em julgado lembraram-me de um diálogo que há muito eu queria apresentar aos leitores.

Em Henrique IV – parte II, escrita em 1598, Shakespeare filosofa acerca da ação da justiça em relação aos ladrões de dinheiro público. Um pilantra conversa com um empregado de hotel acerca do roubo que estes farão na carruagem que transporta o tesouro do rei, que passará por ali dentro em pouco. O Camareiro aponta a ele os riscos que correrão ao praticar tal crime. O gatuno, Gadshill informa-o de que ele não é um ladrão qualquer, pelo contrário, é muito bem relacionado. Que seus amigos são poderosos, e que “têm lá suas preocupações”. Diz, Gadshill:

Gadshill – …Porque estão continuamente preocupados, rezando ao próprio patrono: a riqueza pública, ou melhor dizendo, não estão rezando para ela, pois que a devoram… Porque a esfolam de cima para baixo e fazem botas com a sua pele.
Camareiro – Como! Fazem botas com a riqueza pública? Resistirão à água dos maus caminhos?
Gadshill – Claro, claro. A Justiça as engraxa.

Agradeço a Shakespeare todos os dias, por essa sábia conversa. Estamos falando do século XVI, de uma imagem que é um retrato fiel do Brasil do século XXI. “Esfolar a riqueza pública e fazer botas com ela, para serem engraxadas pela justiça”, é ver demais.

Ah! Como precisamos de um choque de moralidade no Brasil, nasceria um país novo daí. É só perguntar ao povo nas ruas. “A sabedoria grita nas ruas e ninguém escuta”. Se alguns de nossos juízes que compõem as chamadas cortes superiores lessem o diálogo de Gadshill e o Camareiro e impedissem o “engraxamento das botas”, nasceria um país novo daí.

É inacreditável, mas o mero fato de um juiz de corte superior aceitar uma denúncia criminal vira motivo de festa. Lembremo-nos da alegria da imprensa e da sociedade quando o STF acatou a denúncia do chamado Mensalão. Pergunto: quando teremos no Brasil uma “Operação Mãos Limpas”  semelhante a dos italianos.

Diante do quadro de impunidade existente no Brasil – em relação aos poderosos, já que existe justiça para os pobres -, nos perguntamos: até quando a sociedade brasileira suportará essa situação? O que faremos?

Na Idade Média, Lady Constança fala ao rei João Sem-Terra: “… Logo, quando a própria lei não passa de injustiça, com que direito impediria a lei que minha língua lançasse maldições”?

Concordamos com Constança. Continuemos amaldiçoando.

Theófilo Silva é presidente da Sociedade Shakespeare de Brasília

ESTE ARTIGO REFLETE A OPINIÃO DO AUTOR, E NÃO NECESSARIAMENTE  A POSIÇÃO DO SITE www.washingtonbarbosa.com. O SITE NÃO PODE SER RESPONSABILIZADO PELAS INFORMAÇÕES ACIMA OU POR QUALQUER PREJUÍZO DE QUALQUER NATUREZA EM DECORRÊNCIA DO USO DESSAS INFORMAÇÕES