CULTURA Theófilo Silva

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A Justiça e as Botas

THEÓFILO SILVA

A devastadora entrevista de um senador por Pernambuco sobre a corrupção no PMDB, o retorno triunfal de corruptos notórios ao palco central da política e a recente discussão pelo STF de soltar os criminosos cujo processo não tenha transitado em julgado lembraram-me de um diálogo que há muito eu queria apresentar aos leitores.

Em Henrique IV – parte II, escrita em 1598, Shakespeare filosofa acerca da ação da justiça em relação aos ladrões de dinheiro público. Um pilantra conversa com um empregado de hotel acerca do roubo que estes farão na carruagem que transporta o tesouro do rei, que passará por ali dentro em pouco. O Camareiro aponta a ele os riscos que correrão ao praticar tal crime. O gatuno, Gadshill informa-o de que ele não é um ladrão qualquer, pelo contrário, é muito bem relacionado. Que seus amigos são poderosos, e que “têm lá suas preocupações”. Diz, Gadshill:

Gadshill – …Porque estão continuamente preocupados, rezando ao próprio patrono: a riqueza pública, ou melhor dizendo, não estão rezando para ela, pois que a devoram… Porque a esfolam de cima para baixo e fazem botas com a sua pele.
Camareiro – Como! Fazem botas com a riqueza pública? Resistirão à água dos maus caminhos?
Gadshill – Claro, claro. A Justiça as engraxa.

Agradeço a Shakespeare todos os dias, por essa sábia conversa. Estamos falando do século XVI, de uma imagem que é um retrato fiel do Brasil do século XXI. “Esfolar a riqueza pública e fazer botas com ela, para serem engraxadas pela justiça”, é ver demais.

Ah! Como precisamos de um choque de moralidade no Brasil, nasceria um país novo daí. É só perguntar ao povo nas ruas. “A sabedoria grita nas ruas e ninguém escuta”. Se alguns de nossos juízes que compõem as chamadas cortes superiores lessem o diálogo de Gadshill e o Camareiro e impedissem o “engraxamento das botas”, nasceria um país novo daí.

É inacreditável, mas o mero fato de um juiz de corte superior aceitar uma denúncia criminal vira motivo de festa. Lembremo-nos da alegria da imprensa e da sociedade quando o STF acatou a denúncia do chamado Mensalão. Pergunto: quando teremos no Brasil uma “Operação Mãos Limpas”  semelhante a dos italianos.

Diante do quadro de impunidade existente no Brasil – em relação aos poderosos, já que existe justiça para os pobres -, nos perguntamos: até quando a sociedade brasileira suportará essa situação? O que faremos?

Na Idade Média, Lady Constança fala ao rei João Sem-Terra: “… Logo, quando a própria lei não passa de injustiça, com que direito impediria a lei que minha língua lançasse maldições”?

Concordamos com Constança. Continuemos amaldiçoando.

Theófilo Silva é presidente da Sociedade Shakespeare de Brasília

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