CULTURA

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A Medicina e os Cães 

 

THEÓFILO SILVA

 

Tempos difíceis para os doentes, aqueles do século XVII, em que Shakespeare viveu. Trago um exemplo da peça Ricardo II que nos dá um quadro bem diferente dos dias de hoje. Velho e doente, John de Gaunt, outrora poderoso duque, lamenta o banimento de seu filho pelo Rei Ricardo II, fato que contribuirá para apressar seus dias. Ricardo responde: “ora, meu tio, tendes muitos ainda por viver”. A resposta de Gaunt é pronta e sábia: “Mas não podeis alongá-los, rei, nem um só minuto. Podeis encurtar meus dias e retirar minhas noites; mas não vos é dado conceder-me um amanhã”.
Hoje, a medicina pode conceder-nos um amanhã, um ano ou até mesmo décadas. A medicina faz milagres. Apontei o século XVII, o que viveu Shakespeare – e da descoberta da circulação do sangue por Harvey – mas essas dificuldades vão até a segunda metade do século XIX, quando a dor é suprimida nas cirurgias, com o advento da anestesia. Uma outra grande revolução viria a ocorrer na década de quarenta, com a descoberta da penicilina, a mãe dos antibióticos. Hoje, a maioria das pragas estão erradicadas – continuam na África – Sarampo, Poliomielite, Cólera, Tuberculose, Sífilis, Lepra, Difteria e outros males horríveis fazem parte do passado.
A tecnologia aliou-se a ciência médica e tem feitos coisas inimagináveis no que diz respeito à cura de doenças. Dia a dia novas descobertas são acrescentadas prolongando a vida do homem. Se a média de idade de um europeu no início do século XX era de 36 anos, hoje na Holanda é de 80 anos. Mais que o dobro de um século atrás. O mapeamento da hélice de DNA antecipará a cura de doenças genéticas. A clonagem de animais a partir de uma única célula já se permite pensar na reprodução de seres humanos semelhantes. Uma situação que produz calafrios em todos nós. Essa assustadora possibilidade criou uma nova ciência, a Bioética. E mesmo que o Câncer e a AIDS continuem levando muitas almas, hoje se vive mais e melhor.
Mas, infelizmente, essa revolução na medicina tornou o homem um refém de um emaranhado de redes. Vejo que há uma relação promíscua entre laboratórios, hospitais, farmácias e médicos. As farmácias familiares não existem mais, hoje gigantescas redes controlam o mercado. A poderosa indústria farmacêutica, quase toda estrangeira, tem um controle quase absoluto sobre suas fórmulas. Os hospitais de uma determinada região são quase todos controlados por monopólios. Muitos médicos se tornaram reféns das indústrias de equipamentos médicos e dos laboratórios, que lhes ditam soluções prontas para todas as enfermidades. Existe um grupo de maus profissionais que em seus diagnósticos apenas repete o que os laboratórios dizem, sem individualizar os casos.
O doente, hoje, é visto na maioria das vezes como uma fonte de renda a ser explorada. Cartões de fidelidade a um único medicamento, com um suposto sistema de descontos, prendem o doente a um tipo de contrato que pode durar meio século. Há uma guerra permanente entre laboratórios e redes de farmácia por esse doente/cliente.
O abuso no tratamento de pacientes idosos em UTIs é uma constante. Já, as crianças essas são pacientes indesejáveis. Se John de Gaunt, rico como era, pertencesse aos nossos dias, teria vivido muitos mais tempo, e consumido seu dinheiro em leito de hospitais.
Quando o tirano Macbeth disse: ‘atirai a medicina aos cães! Não preciso dela”. Relembro a resposta honesta de seu médico: “atos contra a natureza geram desordens contra a natureza”. Precisamos desses médicos conscienciosos que digam não ao mercantilismo, e existem muitos deles; que vejam as pessoas como gente e não como investimento. A medicina está cercada de cães, precisamos afastá-los para que eles não nos afastem de nossos médicos.

Theófilo Silva é Presidente da Sociedade Shakespeare de Brasília e Colaborador do site www.washingtonbarbosa.com .

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2 comentários em “CULTURA

    Alonso Reis Freire disse:
    11/11/2009 às 18:26

    Exposição muito interessante.
    Parabéns!
    Alonso Reis Freire.

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