A VÍTIMA E O ALGOZ

 

FORTES X FRACOS

 

 

Por Theófilo Silva

 

Uma das cenas aparentemente mais inverossímeis da obra de Shakespeare é a de Ricardo III tentando conquistar lady Anne no momento em que ela está ao lado do caixão do sogro morto. E o que é mais inacreditável é que Ricardo é o assassino. Eduardo, o marido de Anne também foi assassinado por Ricardo. Anne sabe disso, mas diante da insistência e dos argumentos dele, naquele momento em que a Ricardo a corteja, ela acaba aceitando um anel que ele lhe oferece.
Minutos antes de esbarrar em Ricardo, Anne praguejava chamando-o de “ministro do inferno” e “sapo corcunda”, amaldiçoando-o pelos males que ele tinha causado a sua família. Eduardo e Henrique, pais e filho, eram membros da família Lancaster e foram assassinados pelos York, seus rivais na chamada Guerra das Rosas, família a qual Ricardo pertence. Ricardo tinha defeitos físicos, se achava muito feio e foi um dos mais perversos reis da Inglaterra.
A cena que Shakespeare narra, e que eu chamo de quase inverossímil – um homem cortejar uma mulher, cujo marido ele provocou a morte – mexe com uma das questões mais delicadas e difíceis que o ser humano enfrenta durante a jornada da vida. Só mesmo Shakespeare consegue jogar luz sobre uma situação tão difícil e totalmente incompreendida, e mais ainda, insuportável e terrível. Refiro-me a relação entre duas pessoas em que uma é a vítima e a outra é o algoz. O carrasco.
O que faz uma pessoa aceitar calada e com simpatia a presença de alguém que a machucou, lhe causou dores e males muito além do suportável? Por que Lady Anne, que odiava Ricardo, cedeu a “cantada” do futuro rei Ricardo III, e acabou casando com ele?
A resposta é: medo. Na história de Shakespeare, a princesa Anne estava só e abandonada, ela ansiava por vida e desesperada entregou-se ao cruel Ricardo, que num futuro próximo acabará por matá-la. Na verdade, a peça de Shakespeare torna tudo mais violento. Com assassinatos a golpes de espada, uso de carrascos e outras práticas. O objetivo do dramaturgo é causar impacto na plateia. Não que seus personagens não demonstrem suas dores e angústias nos momentos difíceis que atravessam!
Aqui no mundo real, a vida se arrasta permitindo situações incompreensíveis entre vítimas e seus algozes. Em que o mais forte submete o mais fraco. Seja essa fraqueza de natureza física, emocional, econômica, social e muitas outras formas existentes, que sequer conhecemos.
O pior é que quase todas essas formas de violência não são vistas por quase nenhum de nós. Os carrascos não têm cara de violentos, nem declaram seu caráter, como o faz Ricardo III. Os perversos muitas vezes, estão do nosso lado, podendo ser nossos vizinhos, nossos amigos, nossos parentes, figuras públicas e só se identificam quando os casos vêm à tona.
O Direito incluiu em seus códigos o assédio moral, assédio sexual, Maria da Penha e mais uma ou outra lei. São esforços válidos, positivos. No entanto, essas leis pouco inibiram os abusos, que são sempre silenciosos. São múltiplas e diversas, as formas de submissão. Seus perpetradores são bons atores circulando nesse imenso palco que é o mundo. Shakespeare sabia disso. Nós teimamos em não enxergá-los.

 

Theófilo Silva é autor do livro A Paixão Segundo Shakespeare e colaborador do site www.washingtonbarbosa.com

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